Cuidando de si mesmo para cuidar dos outros

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20.28)

Diante deste texto temos pelo menos três implicações:
1. Somos pastores, ou líderes, da igreja de Deus, então precisamos ter a responsabilidade de cuidar da nossa própria vida.
2. É nosso dever cuidar da vida de outros que Deus nos tem confiado.
3. Entretanto, ao fazermos isso, não devemos “morrer pela igreja”. Jesus Cristo já morreu por ela.

A falta de compreensão quanto a estas implicações tem levado muitos líderes e pastores a uma síndrome emocional que tem sido chamada de “burnout”, e que tem a ver com uma total falência emocional na vida daqueles que a contraem.

Duas situações crescentes que temos lidado nos últimos anos na esfera do ministério pastoral e da liderança cristã, e que tem preocupado os especialistas, são a depressão e o suicídio.

Depressão

Algumas pesquisas entre o público evangélico têm demonstrado que o número de pastores com problemas psiquiátricos tem aumentado. Segundo o psiquiatra Dr. Pércio, essas pesquisas tem apontado que, entre os pastores, esse índice é maior que em outras profissões. Recentemente foi verificado que em um grupo amostral 26% eram pastores portadores de problemas psiquiátricos, no caso, depressão. Segundo a pesquisa de Lotufo Neto, médico psiquiatra e professor de medicina do hospital das clinicas em São Paulo, foi encontrado maior incidência de doenças mentais entre ministros protestantes se comparados à população em geral, e os transtornos depressivos responderam por 16,4% das doenças mentais encontradas nos ministros protestantes (1).

As causas mais comuns indicadas para depressão em pastores são:
- Problemas com lideranças de igreja;
- Baixa remuneração;
- Mudança constante de igreja;
- Falta de apoio da igreja local, pastor tem expectativas que não são correspondidas pela igreja;
- Estresse relacionado à atividade pastoral;
- Também foram observadas as queixas das esposas com relação ao tratamento dado pela igreja;
- Pecado e enfraquecimento na fé.

Este é um caso que se complica no contexto do ministério pastoral ou da liderança cristã ainda pelo fato de uma visão triunfalista, onde entende-se que pessoas que são realmente “homens de Deus” não enfrentam problemas como o da depressão.

Suicídio

Uma consequência que tem surgido diretamente desse cenário da vida pastoral é o aumento de casos de pastores que cometem suicídio. Na maioria das vezes o suicídio vem como um complemento de um agravamento de casos de depressão.

De acordo com o Instituto Schaeffer, 70% dos pastores lutam constantemente com a depressão, e 71% se dizem esgotados. Além disso, 80% acredita que o ministério pastoral afeta negativamente as suas famílias, e 70% dizem não ter um “amigo próximo”. Talvez estes dados nos forneçam um retrato da condição emocional da maioria daqueles que ocupam nossos púlpitos.

Há muitas questões obscuras ainda sobre a perspectiva do suicídio. O que podemos afirmar sem medo de errar é que esta tem sido uma ação crescente vista entre a chamada geração pós-moderna, que, infelizmente, não tem ocorrido apenas fora da igreja, mas também dentro dela.

Assim, é de fundamental importância que, como pastores e líderes, compreendamos que antes de cuidarmos dos outros é importante que cuidemos de nós mesmos.

Mas como? Como podemos cuidar de nós mesmos? Penso que a resposta para essa pergunta é que precisamos nos submeter ao cuidado de Deus por nós.

Em I Reis 19 encontramos a narrativa bíblica que nos mostra como Deus cuidou do profeta Elias e com ela podemos aprender como Deus quer estar cuidando de nós, ou, como Deus quer que estejamos cuidando de nós mesmos.

1. Cuide do seu físico.

Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: "Levante-se e coma”. Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo. O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: "Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”. Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus. (I Reis 19.5-8)

O contexto nos informa que Elias acabara de matar 450 profetas de Baal (I Reis 18.40). Imagine o estado de cansaço físico em que ele se encontrava.

É interessante que a primeira coisa que Deus faz no que diz respeito ao cuidado dele com Elias passa pelo seu corpo físico. Deus deixa Elias descansar, alimenta-o, deixa que ele descanse um pouco mais e o alimenta novamente.

Por que?

Porque nós não somos anjos, somos seres humanos. Nós temos corpos físicos que precisam de cuidado, que tem limitações e que precisam ser respeitados.

Tenho visto muitos pastores e líderes que tem um total descaso para com seu corpo físico. Alguns talvez por puro desleixo, usando argumentos bíblicos distorcidos como: “A Bíblia diz que o exercício físico pouco proveito tem”.

Outros, acho que talvez a maioria, não cuidam de seus corpos por se sentirem culpados se estiverem fazendo isso. Uma falsa espiritualidade que cria uma dicotomia no ser humano, nos levando a pensar que aquilo que fazemos para nosso “espírito/alma” é mais sagrado e mais importante do que aquilo que fazemos para o nosso corpo.

Mas a palavra de Deus nos diz em Romanos 6.13 “e ofereçam os membros do corpo de vocês a ele, como instrumento de justiça”. Para Deus somos seres integrais e nossos corpos valem tanto quanto nosso espírito/alma.

Quando o Evangelho nos alcança e nos redime ele não nos transforma em anjos, mas em seres humanos perfeitos. Começamos a ser transformados de glória em glória na imagem do Ser Humano perfeito, Jesus Cristo.

Assim, precisamos cuidar do nosso físico e isso inclui cuidarmos de pelo menos quatro coisas:

a. Precisamos cuidar de nossa alimentação. Muitos pastores comem muito mal. Estão gordos, acima do peso, e dão risadas e fazem piadas com isso. Muitos pastores precisam lidar com o pecado da gula. Precisamos aprender a comer bem e na quantidade adequada, comer coisas saudáveis para a saúde e vitalidade de nosso organismo.
b. Precisamos cuidar do nosso descanso. Pastores tem a tendência de se sentirem culpados por darem uma pausa, por tirarem férias, por descansarem um dia da semana, por repousarem um pouco ao longo de um dia de trabalho. Usamos argumentos de uma sociedade doente, para nos justificarmos quanto a isso. Achamos que é admirável os executivos que fazem isso, mas isso não está de acordo com a palavra de Deus. É claro que eu não estou falando aqui sobre sermos indulgentes e preguiçosos, pois a Bíblia condena isso. Mas o que estou dizendo é que quando, por conta do trabalho árduo que estamos exercendo, sentimos nosso corpo pedindo para descansar, precisamos responder a isso descansando.
c. Precisamos fazer exercícios físicos. Como já mencionei, a maioria dos pastoress que conheço são pessoas que não cuidam nada de seu físico, estão acima do peso, são indulgentes, preguiçosos e indisciplinados nesta área. À medida que envelhecemos, nosso vigor físico vai caindo. É mais do que comprovado clinicamente que após os 60 anos, se você não teve uma vida de atividade física regular, sua massa magra (musculatura) será comprometida grandemente. Todo pastor precisa se dedicar a uma atividade física de sua preferência com regularidade (pelo menos três vezes por semana e 1h no mínimo). Além disso seria bom que todos praticassem musculação, para o desenvolvimento de uma maior massa magra, assim, quando chegarem na idade em que ela será comprometida não sentirão tanto.
d. Desfrutar de vida sexual saudável e prazerosa. Este é um tema que é tão comum e batido, de maneira distorcida, na sociedade, mas que para nós cristãos ainda é tão constrangedor de ser tratado. A relação sexual é uma ideia de Deus. A Bíblia faz várias menções a relacionamentos sexuais e tem um livro inteiro que trata disso. Se somos casados, é necessário que tenhamos uma vida sexual, com nosso cônjuge, ativa e prazerosa.

2. Cuide de suas emoções

Elias entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: "O que você está fazendo aqui, Elias? “ Ele respondeu: "Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”. (I Reis 19. 9,10)

Após Deus cuidar do físico de Elias ele passa a cuidar das emoções de Elias. Se matar 450 pessoas é algo que produz esgotamento físico, imagine então em termos emocionais.

Além do que Elias está abalado emocionalmente porque esperava que a ação no Carmelo levasse o rei Acabe a tomar uma posição diante da rainha pagã Jezabel, mas isso não ocorreu.

Assim como Deus alimenta Elias, agora ele quer ouvir Elias. Muitas enfermidades que temos na nossa alma, em nossas emoções, seriam resolvidas se tão somente tivéssemos alguém com quem conversar. Se estivéssemos em um ambiente de segurança, onde pudéssemos ter a certeza de que estaríamos sendo acolhidos pelo amor e a graça e não sendo julgados.

Dizemos que Deus é onisciente. Sendo ele onisciente ele não sabia o que passava na mente e no coração de Elias? Se Deus sabia, então, porque pergunta para Elias? Porque Deus entende que é importante que Elias fale, que ele coloque para fora o que está angustiando sua alma.

Quais seriam algumas áreas com as quais precisamos lidar para que estejamos cuidando de nossas emoções?

a. Desenvolver um Hobby. Precisamos incluir em nossa agenda de vida algo que gostemos de fazer para nos distrair. Alguma atividade que nos leve a tirar a cabeça dos problemas, do trabalho, e a usufruir de algo que traga energia para nossa alma. Algo que a reabasteça. Lazer não é um pecado, somente quando ele se transforma em um ídolo em nossa vida é que ele se torna um problema.
b. Desenvolvimento de tempo com amigos. Na maioria das vezes pastores estão cercados por pessoas, mas poucas são aquelas que ele pode realmente ter como amigos. As relações pastorais se dão, na maioria das vezes, em torno de necessidades que as pessoas têm de receber algo do pastor. E precisamos dar. Mas todo pastor deveria ter um grupo de amigos, que fosse bem chegado, e com o qual ele pudesse se abrir e ser ele mesmo, sem pensar no que precisa fazer por eles.
c. Outro investimento que temos que fazer para o cuidado com nossa alma é santificar o tempo com nossa família. Há muitas famílias de pastores que estão feridas. Esposas de pastores se sentindo um lixo; um zero à esquerda. Há filhos de pastores se sentindo oprimidos pela igreja e magoados com Deus. Na maioria das vezes, isso é assim porque o próprio pastor não dá atenção às demandas de seu próprio lar – de sua esposa e dos filhos. Eles são sempre empurrados para segundo ou mesmo terceiro planos. Precisamos ter um tempo sagrado para nossa casa, para nosso casamento e para nossos filhos. Um tempo diário, um dia da semana e um mês, quando nos dediquemos a nossa própria família conforme a fase em que nos encontremos.
d. Uma última sugestão que quero dar para o cuidado com nossas emoções é o de ter um mentor espiritual. Alguns pastores têm substituído isso por um terapeuta. Embora eu acredite que teremos casos em que precisaremos da ajuda de um terapeuta, continuo acreditando que a prática da mentoria espiritual nos ajudará muito na manutenção de nossa saúde emocional. Uma pessoa mais sábia nos caminhos do Reino de Deus e que realmente nos ame o suficiente para dedicar-nos tempo e nos ame o suficiente para ter a coragem de nos confrontar é simplesmente essencial para manter a saúde de nossas emoções.

3. Cuide de sua devoção

O Senhor lhe disse: "Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar” (I Reis 19.11)

Por fim, mas não menos importante, Deus cuidou da devoção de Elias. Deus ajudou Elias a reencontrar o caminho da intimidade com ele.
Se Deus já estava falando com Elias dentro da caverna, por que ele diz para Elias sair e ser pôr na entrada da caverna, pois o Senhor ia passar?

É minha convicção é que foi justamente por isso: na caverna, Elias estava tendo uma percepção da palavra do Senhor, mas não estava, necessariamente, tendo um encontro com a presença do Senhor.

Deus não queria dar a Elias apenas a sua palavra. Ele também queria dar a Elias a sua presença. Assim, quando Elias vai para a porta da caverna, o Senhor se manifesta e, praticamente, o mesmo teor da conversa do interior da caverna se repete.

Mas desta vez, isso acontece baseado em um encontro pessoal de Deus com Elias. E Elias tem sua espiritualidade renovada e sua missão re-enfocada. É exatamente isso que acontece todas as vezes que temos uma experiência renovadora com o poder do Espírito Santo em nossa vida.

Do que é que precisamos cuidar, portanto, para que tenhamos essa renovação espiritual sendo operada em nós?

a. Primeiro precisamos resgatar um tempo de leitura devocional da palavra de Deus. Podemos não perceber isso, ou podemos não querer admitir, mas é muito comum que nós pastores, com o passar do tempo, comecemos a nos distanciar da palavra de Deus como a palavra de Deus para a nossa própria vida e passamos a usa-la apenas como uma ferramenta de trabalho. Precisamos reencontrar o nosso amor e prazer pela Bíblia.
b. Outra prática que precisamos resgatar é a oração como um espaço de encontro com Deus. Não a oração apenas para suplicar por coisas, interceder por situações ou agradecer a Deus por feitos específicos. É claro que estas coisas precisam ser inclusas em nossa prática de oração. Mas penso sobre nos aprofundarmos em uma vida de oração que seja mais intensa e pessoal; que seja carregada do simples prazer de nos encontrarmos na presença de Deus.
c. Outra prática que acredito precisamos resgatar em nossas vidas e ministérios é o da adoração comunitária. O fato de estarmos todos os Domingos diante de um grupo de pessoas, conduzindo-as em uma atividade não significa necessariamente que estejamos conectadas a elas em adoração a Deus. Novamente, é muito sutil, mas é extremamente fácil nos acostumarmos com Deus e com as coisas de Deus, porque estamos servindo o tempo todo em sua presença. É fácil tornar o que é sagrado em algo comum. Ao nos reunirmos com nossa igreja para adoração, precisamos nos lembrar que estamos ali também para adorar.
d. Outras práticas devocionais. Como somos pessoas diferentes podemos ter práticas devocionais diferentes, que contribuam com o nosso cuidado espiritual. Para alguns, talvez seja uma caminhada pelo parque contemplando a natureza. Para outros, o ouvir uma bela canção de adoração. Outros, ainda, aprofundarem-se na investigação de um determinado tema. E até, para alguns, o serviço para suprir alguma necessidade de outrem. Seja como for, o mais importante é que tenhamos consciência sobre como é relevante buscarmos a prática de mais disciplinas espirituais.

Veja que após Deus ter cuidado de Elias e de tê-lo restaurado, Deus não o dispensa. Ele não diz: “Tudo bem, Elias, sei que você já me serviu bastante, agora vai curtir sua vida”. Não, assim que Deus o restaura como fruto do seu cuidado, Elias é enviado de volta à missão, a fim de que possa cuidar de outros.

O Senhor lhe disse: "Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria. Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta. (I Reis 19.15,16)

Conclusão

Que assim possa ser comigo e com você também. Que venhamos a fazer parte de uma geração de pastores e líderes que rompam com esse paradigma infeliz da produtividade que vemos presente em nossa sociedade e nos apropriemos do paradigma da frutificação, que é resultado da saúde que temos como parte da Videira verdadeira; como parte do Corpo de Cristo.

 

Ricardo Costa é astor da Igreja Presbiteriana Vinhedo. Diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas. Diretor de Treinamento da MPC Brasil. Professor no Seminário Presbiteriano do Sul. Formado em Teologia e Filosofia. Mestre em Missiologia.

(1) Conforme artigo da internet no site do Instituto Jetro.

fonte: http://aliancaevangelica.org.br/index.php/recursos/artigos/223-cuidando-de-si-mesmo-para-cuidar-dos-outros